
O sábado é, em realidade, o santuário de Deus
no tempo; e, como filhos de Deus, somos convidados a adentrar semanalmente
esse santuário, “para contemplar a beleza do Senhor e
meditar no Seu templo” (Salmo 27:4) |
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Um santuário no tempo
O sábado é o santuário
de Deus no tempo, no qual todos podem entrar
por Alberto R. Timm
A Bíblia fala de um santuário tão
antigo quanto a própria humanidade. Esse santuário, embora
faça parte do tempo, não se desgasta pelo tempo, e é
suficientemente abarcante para acolher todos os filhos de Deus espalhados
ao redor do mundo. Esse santuário de Deus no tempo é o sábado,
qualificado por Abraham J. Heschel como “um palácio no tempo”.1
Mesmo não sendo visto com os olhos físicos, esse santuário
está em toda parte, podendo ser adentrado a cada sétimo
dia da semana.
A instituição do sábado
– Em Gênesis 2 aparece o relato de como foi instituído
esse santuário no tempo: “Assim, pois, foram acabados os
céus e a terra e todo o seu exército. E, havendo Deus terminado
no dia sétimo a Sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda
a Sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo
e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador,
fizera.” Gênesis 2:1-3.
Deus instituiu o sábado através do tríplice ato de
descansar, abençoar e santificar. Houvesse Deus apenas descansado,
e dúvidas ainda poderia haver quanto à validade desse descanso
para as criaturas. Mas o fato de Ele também haver abençoado
(transformando em um canal de bênçãos) e santificado
(separando para uso sagrado) esse dia confirma a instituição
edênica do sábado para a raça humana.
Sakae Kubo declara, em seu livro God Meets Man, que Deus “escolheu
um segmento de tempo” para comungar com Suas criaturas por três
motivos: (1) porque o tempo é universal, e está em toda
parte; (2) porque o tempo é imaterial, apontando além do
espaço e da matéria para as coisas espirituais; e (3) porque
o tempo é todo-abarcante, jamais oscilando em intensidade.2 São
essas características do tempo que permitem que o sábado,
como um segmento de tempo, chegue igualmente a todos nós (ricos
e pobres, cultos e incultos), unindo-nos em uma só família.
Não é isso algo maravilhoso?
Significado do sábado –
Mas o que significa esse santuário de Deus no tempo para nós
hoje, que vivemos no início do século XXI? Eu creio que
ele nos revela pelo menos seis coisas fundamentais para a nossa existência.
1. O sábado revela o poder criador de Deus. A origem do sábado
está diretamente ligada à poderosa atividade criadora de
Deus. O texto bíblico nos diz que no sétimo dia da semana
da criação Deus instituiu o sábado, descansando,
abençoando e santificando esse dia. O quarto mandamento do Decálogo
ordena que o sábado deve ser observado “porque, em seis dias,
fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há
e, ao sétimo dia, descansou.” Êxodo 20:11.
A observância do sábado nos convida, negativamente, a deixar
de lado nossos “próprios interesses” (Isaías
58:13) e, positivamente, a voltarmos nossa atenção a Deus
e à Sua obra. Essa experiência restaura o verdadeiro relacionamento
criatura-Criador.
2. O sábado revela a soberania de Deus. O sábado é
uma instituição que reflete claramente a vontade soberana
de Deus, pois o Criador não buscou o conselho de Suas criaturas
para estabelecer o sábado3, e cada sábado inicia, prossegue
e termina com base em um ciclo astronômico estabelecido por Deus,
independente da vontade humana. Em contraste, a substituição
da observância do sábado pela veneração do
domingo, por autoridade eclesiástica humana, foi (e continua sendo)
um atentado direto à soberania divina.
Observando o sábado, estamos reconhecendo a soberania de Deus em
nossa vida e testificando ao mundo que os caminhos de Deus, apesar de
nem sempre serem os mais fáceis, sempre são os melhores.
A genuína observância do sábado rompe com o fluxo
egocêntrico da vida, levando-nos de volta a uma vida centralizada
em Deus.
3. O sábado revela a imparcialidade de Deus. Vivemos hoje em uma
sociedade tecnológica, caracterizada pela competitividade e pela
discriminação. Na frenética corrida da vida, os mais
lentos, os mais pobres e os mais ignorantes são simplesmente deixados
para trás. Financeiramente, poucos têm muito e muitos têm
pouco ou mesmo nada. No mundo das modernas comunicações,
a televisão e a Internet têm exercido o duplo efeito de aproximar
os distantes e distanciar os próximos. E a busca incessante de
astros humanos tem gerado a constante indagação a respeito
de quem é “o maior” e de quem é “o melhor”.
Mas esta não é a maneira como Deus age. Quando Ele escolheu
um meio para comungar com o homem, não escolheu algo palpável
no espaço, que beneficiasse a alguns, em detrimento de outros.
Em Sua imparcialidade, Ele escolheu um segmento de tempo, que estivesse
universalmente presente em todas as partes.4 O mesmo Deus que “faz
nascer o Seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”
(Mat. 5:45) também concede o Seu sábado a todos igualmente.
Assim, a cada semana irrompe o sábado, como um divino equalizador
da humanidade, integrando ricos e pobres, cultos e incultos, em uma só
família.
4. O sábado revela o respeito divino ao livre-arbítrio humano.
É importante notarmos que, a despeito de o sábado ser universalmente
disponível, ele não é imposto a ninguém. A
realidade é que podemos existir no sábado, sem que o sábado
exista para nós. O próprio mandamento “lembra-te do
dia do sábado, para o santificar” (Êxodo 20:8) implica
(1) que Deus não impõe a observância do sábado
às Suas criaturas; (2) que podemos viver durante o sábado
sem santificá-lo; e (3) que a santificação do sábado
só ocorre quando existe uma resposta humana voluntária e
positiva ao gracioso convite divino.
A verdadeira observância do sábado significa um encontro
voluntário entre Deus e o homem, mutuamente comprometidos pelo
concerto eterno da graça divina. É somente quando há
uma resposta humana de fé à iniciativa divina de comungar
com o homem, que o sábado atinge seu verdadeiro propósito.
5. O sábado nos ajuda a restaurar o verdadeiro sentido da vida.
Vivemos num mundo povoado por pessoas especialistas e desequilibradas.
Na gangorra da existência, alguns enfatizam o aspecto intelectual,
em detrimento dos demais. Outros investem todas as suas energias no desenvolvimento
físico. Já outros vivem apenas pelo social. E existe ainda
os que se excluem do mundo para viver somente em função
de uma religião mística.
Mas a observância do sábado afeta integralmente o ser humano
em todos os aspectos de sua existência (ver Êxodo 20:8-11;
Isaías 58:12-14; Mateus 12:12), ajudando-o a colocar suas prioridades
onde elas realmente devem estar: em Deus e nos outros (cf. Mateus 22:36-40).
6. O sábado é um conduto das bênçãos
divinas. Há aqueles que alegam que a observância do sábado
não passa de uma demonstração de legalismo. Isso
pode ocorrer, se alguém pretende alcançar méritos
para a salvação através da observância do sábado.
Mas a verdadeira observância do sábado é, em realidade,
o maior antídoto ao legalismo, pois significa deixar de lado nossos
“próprios interesses” (Isaías 58:13) para descansar
nos méritos da graça divina e nos alegrar nas obras do nosso
Maravilhoso Criador-Redentor.
É interessante notarmos quão profundamente ligado à
experiência da salvação está o sábado
em Hebreus 4. Nesse capítulo o sábado é visto como
“o sinal exterior de uma experiência interior”5 de “estar
descansando em Deus (cf. Hebreus 4:10), que vem como resultado de estar
sendo salvo pela graça ( 4:16), mediante a fé (4:3).”6
A escritora Ellen White declara que, “a fim de santificar o sábado,
os homens precisam ser eles próprios santos. Devem, pela fé,
tornar-se participantes da justiça de Cristo. Quando foi dado a
Israel o mandamento: ‘Lembra-te do dia do sábado, para o
santificar’, o Senhor lhes disse também: ‘E ser-Me-eis
homens santos.’”7
Portanto, a verdadeira observância do sábado significa desobstruir
a vida dos interesses seculares, possibilitando que as bênçãos
divinas fluam copiosamente para nós.
As bênçãos do sábado
– Existem pelo menos cinco grandes bênçãos que
derivam da verdadeira observância do sábado.
1. Obtemos uma visão mais clara do caráter de Deus. Criado
por Deus, o sábado revela o próprio caráter de Deus.
2. Desenvolvemos maior sensibilidade à revelação
de Deus na natureza. Instituído na Semana da Criação,
o sábado nos lembra a multiforme criação de Deus
(animais, aves, peixes, plantas, flores, etc.). Se a natureza foi criada
por Deus, como podemos amá-Lo verdadeiramente sem apreciar as obras
de Suas mãos?
3. Desenvolvemos a estabilidade existencial que deriva do relacionamento
criatura-Criador. A gangorra da vida tende a desestabilizar nossas emoções.
Quando somos bem-sucedidos, assumimos muitas vezes uma atitude auto-suficiente.
Quando nos saímos mal, frustramo-nos com facilidade. O sábado
nos lembra que nossa segurança não está em nossas
realizações humanas, mas na dependência do nosso Criador.
4. Aprimoramos o nosso relacionamento social. Rompendo com o nosso egocentrismo
natural, o sábado nos convida a viver uma vida alterocêntrica
em relação com os demais seres humanos, incluindo familiares,
amigos, necessitados, etc. (ver Mateus 12:12).
5. Melhoramos nossa saúde física e mental. Você já
pensou alguma vez o que seria da nossa vida sem o sábado? Mesmo
não desfrutando das bênçãos espirituais do
sábado, o benefício para a saúde física e
mental já compensa a sua observância.
Conclusão – O sábado
é, em realidade, o santuário de Deus no tempo; e, como filhos
de Deus, somos convidados a adentrar semanalmente esse santuário,
“para contemplar a beleza do Senhor e meditar no Seu templo”
(Salmo 27:4). Somos instados pelo profeta Isaías a nos tornarmos
reparadores “de brechas” e restauradores “de veredas”,
testemunhando aos outros das bênçãos que advêm
de deixarmos de lado os nossos “próprios interesses”
para nos deleitar “no Senhor” (Isaías 58:12-14).
Por que não elevamos aos Céus o nosso pensamento, cada sábado,
em louvor ao nosso Grande Criador-Redentor? “Ó Senhor, Senhor
nosso, quão magnífico em toda a Terra é o Teu nome!”
(Salmo 8:1 e 9). “Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas
coisas? Aquele que faz sair o Seu exército de estrelas, todas bem
contadas...” (Isaías 40:26). Porque “os céus
proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de
Suas mãos” (Salmo 19:1). Permitamos que cada sábado
seja uma bênção em nossa experiência, restaurando
em nós o genuíno espírito de louvor e gratidão
a Deus.
Referências
1. Abraham J. Heschel, The Sabbath: Its Meaning for Modern Man (New York:
Noonday Press, 1951), pág. 12.
2. Sakae Kubo, God Meets Man: A Theology of the Sabbath and Second Advent
(Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1978), pág. 24.
3. Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, 14a ed. (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 1995), págs. 47 e 48.
4. Kubo, págs. 23 e 24.
5. M. L. Andreasen, The Book of Hebrews (Washington, D.C.: Review and
Herald, 1948), pág. 173.
6. Alberto R. Timm, “El significado del concepto de descanso en
Hebreos 3 y 4”, Theologika (Peru) 10, n0 2 (1995), pág. 222.
Ver também: Alberto R. Timm, “O Sábado na Experiência
da Salvação”, Revista Adventista, abril de 1985, págs.
11-13.
7. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, 17a ed.
(Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), pág. 283.
Alberto R. Timm, Ph.D., é professor de Teologia
do Unasp, Engenheiro Coelho, SP.
O
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O princípio da felicidade
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